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Tear de Informações

O Brasil que me ensinou a respeitar as diferenças

O Brasil

Nasci em 1991, quando o Brasil já havia voltado a ser uma democracia. Não vivi a ditadura, não conheci o país sem liberdade política. Cresci acreditando que a democracia era parte da nossa realidade, algo que existia antes mesmo de eu ter idade para compreender o seu significado.

Em 1996, minha mãe conseguiu fazer uma viagem incrível de 30 anos para os Estados Unidos, quando o real chegou a valer um dólar. Guardo essa lembrança como parte de um Brasil que também me ensinou a sonhar, a conhecer o mundo e a acreditar nas possibilidades que a vida poderia oferecer.

Na escola, estudávamos as letras de Chico Buarque. Líamos histórias do folclore indígena e africano. Aprendíamos sobre diferentes culturas, tradições e maneiras de compreender o mundo. Talvez eu não entendesse, naquela época, a dimensão de tudo aquilo. Mas cresci com a ideia de que as diferenças não deveriam ser motivo de desrespeito e de que nenhuma pessoa deveria valer menos por causa de sua origem, sua crença ou sua história.

Acho que tive sorte.

Isso não significa que tenha passado pela vida sem conhecer o preconceito. Sou espírita kardecista e já senti olhares estranhos quando falei sobre minha religião. Embora seja paulistana, já fui chamada de baianinha por ter família nordestina. Aprendi, na prática, que as pessoas podem tentar nos encaixar em categorias antes mesmo de se interessarem em saber quem somos.

Também passei por um período sombrio da minha vida ao lado de pessoas ainda mais privilegiadas do que eu, que me faziam sentir como se estivesse em um limbo. Eu não me sentia verdadeiramente acolhida por um lado, mas também não pertencia ao outro. Foi um período difícil, que me fez questionar muita coisa sobre mim e sobre o mundo.

Felizmente, conheci pessoas com realidades diferentes da minha. Pessoas que me trouxeram um senso de realidade imenso e me ajudaram a enxergar o mundo para além dos círculos em que eu havia vivido. Essas experiências ampliaram minha compreensão sobre as desigualdades, sobre os privilégios e sobre como nossas vivências podem ser muito diferentes, mesmo quando compartilhamos o mesmo país.

Hoje, gosto muito mais da pessoa que me tornei. Sinto que essa minha versão conversa muito mais com aquela menina que estudava diferentes culturas e aprendia que todos merecem respeito.

Talvez seja por isso que o momento que vivemos me angustie tanto.

Tenho medo de ver o Brasil retroceder. Não apenas economicamente ou politicamente, mas como sociedade. Assusta-me ver a intolerância ganhar espaço, o preconceito ser expresso com orgulho e a desumanização do outro se transformar em instrumento de disputa política. Preocupa-me o poder que as grandes empresas de tecnologia exercem sobre o debate público e sobre a maneira como as pessoas recebem informações, formam opiniões e se relacionam com quem pensa diferente.

Não quero idealizar o passado. Sei que o Brasil nunca foi o país justo e acolhedor que gostaríamos que fosse. O preconceito sempre existiu, assim como as desigualdades e as contradições que atravessam a nossa história. Mas não quero aceitar que aquilo que ainda precisamos superar seja tratado como algo do qual devemos nos orgulhar.

Nasci em uma democracia. Cresci estudando a cultura brasileira, conhecendo histórias de diferentes povos e aprendendo, mesmo sem perceber, que o mundo é maior do que a nossa própria experiência. Quero continuar vivendo em um país no qual as próximas gerações também possam aprender essas coisas. Um país em que uma criança não precise sentir vergonha de sua religião, de sua origem ou de sua família. Em que a diversidade não seja tratada como uma ameaça e em que o respeito não dependa de concordarmos uns com os outros.

Talvez eu tenha tido sorte. Sorte de ter encontrado professores, livros, experiências e pessoas que me ajudaram a construir essa visão de mundo. Mas gostaria que aquilo que considero uma sorte fosse, na verdade, algo que todas as crianças pudessem experimentar: a oportunidade de conhecer realidades diferentes, desenvolver empatia e aprender que ninguém precisa ser igual a nós para merecer dignidade.

Não sei como será o futuro do Brasil. Sei que tenho medo, que sinto angústia e que, às vezes, é difícil olhar para o presente sem me perguntar em que momento tantas pessoas passaram a tratar o respeito como fraqueza.

Mas também sei quem quero ser.

Quero continuar sendo essa pessoa que se interessa por outras histórias, que reconhece os próprios privilégios, que aprende com quem vive realidades diferentes e que não precisa diminuir ninguém para se sentir pertencente.

Quero continuar conversando com aquela menina que estudava Chico Buarque, lia histórias indígenas e africanas e aprendia que o mundo não termina nas fronteiras daquilo que conhece.

Porque o Brasil não é apenas o lugar onde nasci e vivo. É também o lugar que amo, a cultura que me formou e o país que desejo ver amadurecer, não retroceder.

E, se hoje tenho medo de perder alguma coisa, talvez seja justamente isso: a possibilidade de construirmos um país em que o respeito às diferenças não seja uma ideia ensinada nos livros, mas um princípio que escolhemos praticar todos os dias.

Não quero desistir do Brasil que ainda podemos ser. Quero continuar fazendo a minha parte para que ele exista.

 

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